
O gato siamês brincava com liberdade pelo pequeno apartamento mal iluminado. Com elegância desfilava entre os móveis antigos e com maestria saltava de uma pilha de livro para outra, sem nunca desequilibrar nenhum fascículo. De repente, parou. Estava sobre uma pilha alta, de frente para porta do apartamento, observando-a estaticamente. Ouviu um estalar vindo do trinque e observou a maçaneta girar. O bichano saltou e ganhou o chão novamente. Caminhou para próximo da porta e roçou a cabeça naquele par de pernas femininas que acabara de entrar. Era a forma de Greg dar boas vindas à sua dona que encerrava mais um dia de trabalho. Todas as noites ele repetia aquele ritual, desde muito novo. Conhecia a rotina daquela senhora como ninguém. Ela agora suspiraria, lhe faria um cafuné, ligaria a televisão, iria ao banheiro, daria descarga, lavaria as mãos, ligaria o rádio, colocaria uma música qualquer, desligaria a televisão. Tudo muito mecanicamente, como algo programado para cumprir aquelas ações. Caminharia para cozinha, abriria os armários e – eis o grande momento do dia! – e encheria a sua vasilha de ração. Bem verdade que os pedaços de carne que iria degustar mais tarde, depois que ela jantasse e dormisse sentada no sofá, de frente à TV, com o prato na mão e os restos da comida, lhe deixaria mais feliz, mas, por ora, aquela refeição cotidiana já lhe agradava o estômago. Parou o seu ato de carinho e esperou a retribuição cotidiana da dona que – engraçado! – não veio.
Greg soltou um miado triste, em protesto, que não abalou dona Luísa. Ela apenas sorriu para o bichano e descarregou aquela pesada pilha de papeis sobre a mesa da sala. Depois soltou um suspiro diferente de todos aqueles que o gato já havia testemunhado durante sua vida doméstica. Era um suspiro feliz, cheio de satisfação, que parecia expulsar de dentro dela um peso enorme. Quebrando ainda todos os protocolos, dona Luiza desabotoou sua blusa, se jogou sobre o sofá sorridente como nunca e por pouco não esmagou o bichano que novamente miou protestando.
-- Acabou, querido Greg. – bradou dona Luísa. E com um novo suspiro, completou. - E eu venci!
E riu-se como um nenê que recebe cócegas.
-- Precisamos brindar, Gregório! – disse ela ainda no meio da crise de riso. - À minha vitória. Eu só preciso de um minuto! Um minuto meu! Um minuto aqui, esparramada neste sofá, se lixando para o mundo! Menos para você, meu querido. Vem cá na mamãe, vem!
O gato excitou por um instante – "O que é que deu nesta maluca?" ele deve ter pensado – e por fim cedeu ao chamado da dona. Talvez obedecendo ele encurtasse aquele comportamento estranho da senhora. "Logo hoje que eu estou com uma baita fome!"
-- Parece que eu acabo de chegar de uma guerra, Gregório. E, sabe? – a crise de risos cessou abruptamente. - Eu não queria que fosse assim.
Dona Luísa parou um instante com o olhar vidrado em nada.
-- Mas as coisas não têm sido muito como eu quero há uns quarenta anos...
E disparou a rir novamente.
(continua)
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