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domingo, 30 de junho de 2013

assassinato

desapaixonar-se
foi igual que nem
lhe tivessem dado
sete facadas
no peito
do seu eu-lírico.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

de Assis Benevenuto (https://www.facebook.com/assis.b.vidigal)


Se vimos tantas bandeiras levantadas durante esses protestos e manifestações - e veremos ainda mais - é porque é preciso força. A(s) situação(ões) ética(s) que estamos vivendo é de um enorme encobrimento com panos (quentes, frios, macios...). E mesmo cientes de que a Humanidade caminha, sempre caminhou, dessa forma, EI!, SEMPRE não é o nosso tempo. Precisávamos de um impulso maior, algo como um inconsciente coletivo que viesse à tona como num ato falho para que identificássemos essa força, nos identificássemos nas tantas diferenças. Nesse barco seguem os contra o preconceito, contra os impostos, contra os aumentos, contra a inflação, contra o desemprego, os contra o estupro, os a favor da descriminalização do aborto, da maconha, contra aos desvios Bilhonários, contra a propaganda de um brasil para estrangeiros, contra as ações autoritárias e higienistas das nossas políticas públicas, os contra o sistema que rege a política da cultura, da educação, da Saúde, os tão cansados e acostumados com a expressão "é assim mesmo", as pessoas que de alguma forma precisavam - e precisam - vomitar sua energia e suas vozes, mesmo sem saber ao certo qual alimento estragado comeram há dias atrás (anos, décadas, séculos). Se vimos tantas bandeiras levantadas durante esses protestos e manifestações - e veremos ainda mais - é porque somos um reflexo desse espelho quebrado chamado nação brasileira. Pedaços refratados.

Se existem tantos contras deve ser porque queremos SER A FAVOR! A FAVOR do ser humano que vive nesta época, que é número dos indicativos deste país e responde por ser brasileiro, a favor dessa gente que ri, que chora, que paga imposto, que come, que caga, que precisa ser feliz, que adoece, que sofre, a favor dessas pessoas, nós, que TEM DIREITO à educação, consciência política, ética, estética, a ter liberdade de ser e se entender como um ser pensante e atuante dentro de uma confusa sociedade.

Estão nas ruas por um mesmo motivo: dignidade. É preciso dar vazão. Depois, sendo o caso, pensemos em marchas diárias, cada dia com o seu tema. E mesmo assim, pelo jeito que a coisa vai e tomara que seja assim, no dia da manifestação dos direitos dos GBLT estarão presentes civis representantes da manifestação da educação, devidamente vestidos para a manifestação dos GBLT; No dia da manifestação a favor de uma melhor educação e salários dignos para os professores estarão presentes diversos representantes de outros movimentos, devidamente vestidos para a manifestação sobre a educação... Assim, poderemos criar uma agenda pragmática para saber com qual roupa sair de casa em cada dia. Pode ser... Mas, antes, é de extrema importância que o que nos una seja o reconhecimento, em ação, dessa insatisfação cidadã.

O fato é que acho muito cabível e verdadeira essa profusão de causas nessas manifestações que estamos vendo. Isso é a ponta do ice-berg - expressão tão usada que nem nos causa mais medo. O mundo e toda a gente precisa VER - já que dispara-se muito mais flashs do que tiros - como andam os tupiniquins, botocudos, tuparis, pirahãs, barés (...), terra do samba!

É preciso que essa gente toda que anda com suas 'distintas' causas aos berros e aos corpos pelas cidades nas manifestações se olhem nos olhos, reconheçam o seu semelhante nas suas diferenças: 'ei, você é a favor de tal liberdade (...), eu nunca pensei sobre isso. Mas você está aqui, frente a mim, vivo, me olha, grita junto comigo, me massacra com sua energia, chora. Isso deve ser importante para você.' 'ei, você está fumando maconha, pare com isso! - Ei você tá dando o cu, pare com isso!'. Estamos aqui. 'Seus hiprócrita!' - Ei, é hipócrita!' - Ei, eu não aprendi direito na escola, porque era uma bosta!' - 'Ei, a escola era uma bosta porque não tinha dinheiro, e o seu professor, aquele ali na frente ó, não tinha como dar aula!'. Estamos aqui.

E sempre alguma coisa irá fugir do 'controle', pois é da ordem também. Se nossos corpos estiverem em paz pelas ruas da cidade, certamente eles irão incomodar MUITO. A rua, do jeito que está, não nos cabe, não protege, não recebe, não nos quer bem. E por isso não incomoda o governo, porque nas ruas não podemos estar. Mas ela é pública, né? Pois, juntos, se nossos corpos estiverem em paz pelas ruas das cidades, certamente vamos incomodar muito. Porque seremos visíveis, porque nosso corpo ocupa lugar no espaço, porque nosso corpo responde a necessidades básicas de comer, cagar, urinar, ver, falar, estar. Escondidos somos números do CENSO; aparentes somos seres humanos, seres sociais a favor de dignidade, escola, hospitais, comida, verdade, menos impostos, deslocamento justo, planejamento sério, somos gays, trans, homo, poli, somos grávidas, somos inclusive uns que afetam os outros, que machucam os outros, que precisam estar uns com os outros para se organizar. Sabemos que NUNCA teremos as condições PERFEITAS. As reivindicações não querem isso, querem dignidade de ser.
Isso que está acontecendo, várias bandeiras juntas, me parece mais um espaço criado, um organismo, uma performance, do que apenas perda de foco. Nesse espaço dá-se também o desentendimento do que é certo apenas para mim, dá-se à força além da causa pessoal, do departamento ou sala a qual represento.

Estamos aparecendo todos de uma só vez. E isso é importante porque é um movimento, um auto-reconhecimento do outro, porque o que move é uma insatisfação que não encontrará sua causa lendo os jornais porque os jornais mentem muito, ou na educação porque a situação das escolas, ou em deus porque deus anda muito mandão e fatalista. Nessa massa heterogênea podemos acreditar nalgum tipo de ser humano que queremos vir a ser, nalgum tipo de governo que seja preciso para sustentar e ser sustado por essa ética.
Estamos aqui, todos. Estaremos nas ruas. Estaremos em casa. Estaremos dando aula, comendo, vendendo, viajando, votando, mijando, morrendo.