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sexta-feira, 11 de julho de 2014

no meio de uma coleção de certezas, encontrei esta agora:

"um dia 
não bastaria um ônibus,
vinte e dois minutos de caminhada,
pedalar morro acima,
um toquinho no celular
não bastaria nem
a casualidade das coisas.
dos dias.

um dia
brotaria uma distância
dessas preenchidas de vácuos, incalculáveis no sistema de medias precisas, mãe de poemas tão murchos e sorrisos minguados

e para ela nada basta, nunca se chega: uma senhora distância.

brotada.
solidificada.
instaurada.


entre aqui e ali.

glacial. 

um dia
você iria pra ali.

esse ali tão longe

bem longe.

e a mim restaria ficar aqui,
glacial".

até logo, eu digo agora. até lá!
(quem sabe um dia?)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

engole este grito, menino.
agora olha pra cá
assim não, assim feio.
sorri!
isso
assim.
sem careta. careta não.
careta feio
outra vez
que isso?
abre a boca
deixa eu ver

engole este grito
ENGOLE
deixa eu ver se engoliu.
isso
bonito.

menino bonito.
agora olha pra mim, dá um sorriso, dá?

quarta-feira, 18 de junho de 2014


domingo, 11 de maio de 2014

gabinete dramatúrgico on-line

Em face aos últimos acontecimentos,
de Raysner de Paula

Ela vomita:
Só Deus sabe o quanto eu estou aliviada e satisfeita
com esse nosso investimento, essa nossa mobilização, esse nosso empenho
ISSO DA GENTE
já ter adiantado a coisa toda, essas coisas, esta questão
A DA FUNERÁRIA
Santa antecipação!
Por que
NÃO!
imagina
nós 4 sermos pegos, assim, de surpresa, num dia como hoje
NOITE DE NATAL
quem gosta de ser surpreendido assim?
NOITE DE NATAL
EM PLENA CEIA
REUNIÃO DE FAMÍLIA
FESTEJO
Quem?
Aposto que nem esse rapazinho,
Este, o da funerária, aquele, que nos atendeu mais cedo, o que nos avisou
nem ele.
O que ligou pra um por um
Até isso eles
SANTA FUNERÁRIA!
Nos pouparam
Dos avisos, dos telefonemas, do
‘oi, nosso pai, o teu pai, o meu pai, não está bem, nosso pai, o meu pai, o teu pai, ele, você sabe, eu digo, ele já não estava muito bem, há tempos, o médico nos precaveu, nós já sabíamos, nós já nos resguardávamos, nosso pai, hoje, nessa noite de natal, às vinte e três horas e vinte cinco minutos, o teu pai, o meu pai, desculpa te ligar assim, mas é que aconteceu algo, ele, sim, é urgente, mais que um acidente, você sabe: o nosso pai morreu.”
Eles nos pouparam! Esses rapazinhos, os da funerária, desses telefonemas, desses dizeres, em plena noite de natal
QUEM GOSTA DE SER SURPREENDIDO ASSIM?
Nem eles, esses rapazinhos
aposto que eles nos xingaram horrores. Por trás dessas carinhas prestando suas melhores e empacotadas e comercializadas e industrializadas e ensaiadas condolências. há de existir por de trás delas caretas horríveis para nós, há a ira das expressões do momento que tiveram que interromper suas ceias, os seus festejos, sua noite de natal, para comunicar a
NÓS,
OS FILHOS
Que mensalmente permitimos descontar dos nossos salários, dos nossos suados salários, essa quantia, esse tanto de dinheiro besta que fazia lá alguma falta, mas que
NÓS,
OS QUATRO IRMÃOS
Sabíamos que esse dinheiro pagava este alívio, esta espécie de missão cumprida, este gosto do AINDA BEM, FIZ O QUE PUDE, NÃO TEMOS MAIS COM O QUE NOS PREOCUPAR está tudo acabado
Nós nem mais precisaremos nos ver!
Nem mais precisaremos fingir afeto entre nós
Esse afeto imposto por esse laço que sem querer nos une, nós no fundo sentimos isso, falamos isso com os olhos, nós exalamos esse pensamento, ai se nós pudéssemos dizer, se pudéssemos festejar, cada um com a dívida funeral já paga, a não necessidade de um velório.
(o nosso pai não tinha amigos, não temos outros parentes, nada.)
(há apenas esse vazio e a morbidez dessa sala que na verdade não é nada demais, é só o peso de tantas outras mortes comunicadas aqui, nessa sala, só isso, o peso de tantas outras mortes, não é nada nosso)
Não temos e não vamos nos preocupar.
Nossos boletos estão pagos. Nosso compromisso está em dia. Nós estamos bem.


EU ESTOU BEM.

O OUTRO FILHO: Tem certeza?
A IRMÃ DO MEIO: Bebe essa água.
ELA: Eu estou bem.
O IRMÃO MAIS VELHO: isso DEVE ser alguma porcaria com a qual você andou se entupindo...
ELA: deve.
A IRMÃ DO MEIO: Deve ter sido o susto.
ELA: deve também
O OUTRO FILHO: Você se assustou?
A IRMÃ DO MEIO: Parece que aqui não demora.
ELA: Eu me assustei um pouco, eu já estava deitada, estava quase dormindo, eu.
Eu não sei.
A gente ensaiou isso tudo.
Eu ensaiei isso tudo.
Quando me dessem a notícia eu faria uma cena.

Ela faz uma cena:
Eu tenho uma lembrança do meu pai. Uma lembrança tão bonita.










sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

estiagem


currículos
mensagens aos distantes 
cartas de amor 
umas de anuência 
e também de intenção 

enviados aos monte.

é aí que transito 
num tão sem fim vácuo
que cabe o universo
que existe entre 
um sim
(piscadela)
ou não.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

questão de gravidade

queda?
não.
por você
o que eu tive
foi um tropeço.















P.S: caí de quatro, ao seu lado.
mas aí essa sua mania
de olhar sempre pro alto
que me deixou 
(por algum tempo)
desse jeito no chão.

sábado, 16 de novembro de 2013

etnografia de um marco polo de araque

Hoje resolvi dar uma volta ao mundo.
Aí
saí de casa 
fui andando
(andei até outra ponta ali da minha rua)
Cumprimentei uns vizinhos, 
Dei notícia pra dona Maura, 
expliquei o porquê do meu sumiço pra dona Maria
mexi com os cachorros que latiam irritados atrás dos portões
fiquei assistindo por um instante o futebol arte da meninada
e os primeiros namoricos das menininhas dali da frente
(que nasceram ontem mesmo, essas meninas)
(as duas filhas do Marcinho e a sobrinha do Amauri)
(tudo de namorico ali perto da goiabeira com os meninos lá de cima)
aí
catei umas acerolas do passeio da casa Fátima.
A Gilda ali do lado insiste em varrer o passeio com a água
(se lá nela não tem gato, ela só pode ser sócia da Copasa)
(A Gilda perguntou se eu não queria que jogasse uma água aqui na frente do portão.)
(eu disse que sim e agradeci)
Você precisava ver o azul que derramaram no céu do meu bairro hoje de tardinha.
aí
Quando parei pra pensar
(já de volta dada)
lá estava eu
(de volta ao meu)

ínfimo e imenso
(com um azul derramado no céu que, menino!)

mundo.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

climão

o céu sorriu um sol debochado 
depois de um demorado chororô 
nos ombros de beagá.