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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Demitido? Meu pai? Imagina!"

-- Raysner, seu pai foi demitido?
Acho "demitido" um termo muito pesado. Soa mal. Me lembra o Justus fazendo aquela cara de mau, de quem foi muito contrariado, arqueando a sobrancelha, apontando com o dedo indicador e eliminando algum dos seus "aprendizes". Tá, pura frescura minha, mas prefiro adequar aos termos mais pedantes, desmasiadamente usados nesta contemporaneidade:
-- Vê lá se meu pai, trabalhando 22 anos incansavelmente, sem nenhuma falta ou ocorrência contra, dedicando a vida por uma empresa que, sem pensar duas vezes, o cortaria do quadro de funcionários seria assim, demitido! Ele apenas sentiu os reflexos da crise...

CRISE ESTA QUE, SEGUNDO O PRESIDENTE LULA,O BRASIL ESTÁ PRONTO PRA ENFRENTAR! (Meu pai, coitado,mesmo sendo brasileiro, não estava.)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Juro que não falo

Jurei que não falaria sobre minha aprovação no curso de Teatro, na Universidade Federal de Minas Gerais (mais precisamente em 13º lugar, o que me coloca entre aqueles que terão entrada no primeiro semestre para a primeira turma). Acho que isso ocupa espaço, é de pouca relevância, torna o meu blog uma espécie de "querido-diário-virtual" e há coisas mais interessantes para serem vistas na internet. Para que alguém perderia o tempo lendo os meus humildes relatos sobre este mês de janeiro que funcionou como um divisor de águas na minha vida? Quem se importaria em saber que o mês passado eu tive a impressão de que havia vivido o suficiente para um semestre? Vê lá se um ser conectado nesta teia de computadores, que oferece múltiplas formas de entreternimento, vai querer saber de toda a minha aflição vivida na durante o período pós-provas-da-segunda-etapa até o dia D, no qual o resultado foi divulgado, às 14 horas (era uma sexta feira, dia 23/01, e a Josi, uma companheira de turma, quem me deu a notícia)? Ninguém, não é mesmo? Por isso eu não o fiz. E talvez eu nunca faça. Não pretendo relatar nada que trate da minha mais nova escola (e vitória). Por mim, todos os carissímos leitores que passam por aqui morrerão sem saber que valeu a pena acordar às 5 da manhã, pegar ônibus lotado, estudar durante toda as férias, almoçar durante um mês sanduíche do Carrefour, só falar de Getúlio Vargas e Fidel Castro, deixar tudo de lado, mas, no fim, ver meu nome na lista de aprovados.
Nem sob tortura o farei. Vê lá se alguém terá paciência para ler tamanha balela!

sábado, 26 de julho de 2008

Tio Raysner e suas desventuras...

Ontem meus pais comemoraram 21 anos de casados.

Considerando as estimativas para uma relação na modernidade, os dois pombinhos estão batendo recordes e mais recordes. Ao todo são quase três decádas juntos (se levarmos em conta os seis de enrolação). E eu acho isso tão bonito e até sinto orgulho de vê-los assim, tão unidos e enamorados depois de tanto tempo.

O meu pai tem uma pinta de malandro, mas é um homem romântico. Se eu tivesse o mesmo faro para mulher que ele tem, na certa não passaria tanto tempo encalhado. O homem era o Dom Juan lá da 'Portelinha' onde ele cresceu. Se arranjava com toda a mulherada. Pelo menos é o que ele e minha mãe contam. Todavia, se levarmos o padrão de qualidade dele... Enfim! Ainda bem que ele encontrou minha mãe.

E o romantismo do meu progenitor é exacerbado. Ele é daqueles homens que compram flores, tratam a esposa como princesa e onde quer que vá está acompanhado dela. Parece que aquele ar de inicio de namoro nunca se perdeu no relacionamento dos dois. O problema todo está só na forma que ontem ele escolheu para demonstrar o seu sentimento...

A tarde já se ia quando meu celular toca:

-- Oi, pai.

-- Tudo bom, Raysner?

-- Tudo pai.

(Raramente ele me liga a tarde e ainda por cima do serviço. Quando este evento ocorre pode esperar: lá vem bomba!)

-- Tá precisando de alguma coisa pai?

-- É que Home Theather já está disponibilizado lá na Autorizada. Cê pode ir lá buscar?

-- Posso sim pai. Só isso?

(Ah...Essa minha boca! Por que eu não desliguei na hora?)

-- Ô Raysner...Que é que você vai fazer mais tarde?

-- Ah, pai! Nada.

(Isso porque era noite de sexta feira, em pleno mês de férias!)

-- Então...Não sai não.

-- Por que pai? Vocês vão sair hoje?

-- Não. Por que eu preparei uma surpresa pra sua mãe! Quer dizer, pra homenagear nós dois.

-- O que pai?

-- Contratei um carro de Mensagem...

-- AO VIVO?

-- É!

-- Com foguete e tudo?

-- E cesta mais 4 músicas! - e como se estivesse me contando que tinha ganhado na loteria - Uma foi brinde!

-- Ah não pai!

-- O que?

-- Nada, nada!

-- Ah, Raysner! Me deu vontade. Vai chegar aí em casa por volta das nove. Daí, fica em casa pra estar lá com a gente na hora em que eles chegarem. Avisa o Randyner!

O mundo parou naquele momento. Sim! Eu ainda tenho destes acessos infatalóides, típicos dos adolescentes, que quase me matam quando meu pai resolve 'diferenciar' o seu comportamento. Pior que a notícia da cárie, dada pelo dentista a alguns meses atrás, foi só este comunicado dele. Meu estômago deu um solavanco e eu comecei a arquitetar planos para estar longe de casa às nove. Não podia ser proposital. Teria que parecer acidente, entende? Aí, comecei a pensar numa intoxicação, quebrar o pé, cortar um pulso ou, quem sabe, tomar um sonífero... Um não (tenho sono leve e aquele foguetório não ia ajudar em nada!), três (só para garantir).

Mas aqui em casa não tinha nem sonífero e cortar os pulsos é coisa de emo. Quebrar o pé já estava fora de cogitação: Tenho um espetáculo para estreiar daqui duas semanas. Não dá pra entrar em cena engessado. O negócio era se agarrar na folhinha e ter fé em Deus. O resto... Ah! Nem era tão ruim assim: Só trinta minutos de show no meio da rua.

E eis que o relógio marca 20:50. Faltam só dez minutos. O estômago estava ótimo. E a suadeira então? Super controlada! As pernas nem tremiam e o safado do meu irmão tinha zarpado. Minha mãe, coitada, gripada e com febre, já estava vestindo o pijama e meu pai insitindo para ela se arrumar para pelo menos 'ir ali, comer alguma coisa.' E eu, rindo nervoso, só esperando o carro - nada chamativo - chegar e aquele pesadelo de Kafka acabar. Acabei tendo que dar um pulinho na rua antes do príncipio do circo. Um casal de amigos meus me chamava.

E lá estava eu com meus dois amigos, na entrada do prédio, quando, lá na ponta do morro, surge ele, de giroscópio ligado, luzes de neon acessas e espalhadas por todo o véiculo, porta-malas aberto e executando uma música do Bruno e Marrone que, de tão nervoso, eu nem reparei qual era: Pronto! Não tinha mais como fugir... O carro de tele-mensagens chegara.

Quando se mora em prédio nada passa despercebido. Em menos de segundos, dezenas de janelinhas se iluminaram nos prédios vizinhos e o pessoal mais próximo dos meus pais se amontoou ali, na entrada do condomínio, para prestigiarem os pombinhos.

-- Gostaríamos de convidar aqui nossa amiga Helena. - disse o locutor.

E agora, além de luzes acessas, via-se cabecinhas de curiosos em todas as janelas. E nada da minha mãe sair para receber as homenagens.

-- Ela deve estar matando meu pai. - eu disse ao meu amigo.

-- Eu, no lugar dela, pedia divórcio. - disse minha amiga, quase tendo um surto de tanto rir.

-- No seu aniversário eu vou te mandar um, Mayara. Só pra me vingar. - eu disse a ela.

-- Eu nunca mais olho na sua cara, Raysner!

Não é a primeira vez que meu pai faz isso. Já é a terceira, se não me engano. A diferença é que sempre o carro espalhafatoso chegava no meio da festa do aniversário dela e aí virava bagunça porque ela e todos os convidados já estavam bebados. Era um tal de todos os amigos dela falarem, cantarem e se declararem que só Jesus. No entanto, ontem ela estava sóbria. E não tinha nenhuma festinha para todo mundo encher a cara. Agora era encarar na marra.

-- Helena... Onde está Helena?

Pois é! Onde estava Helena?

E eis que os dois surgem: meu pai e minha mãe. Íncrivel: ele não tinha nenhum arranhão.

As luzes do carro não se apagam. Um outro homem que veio no carro estoura os fogos de artíficio. O locutor retoma a atenção, lendo um texto padronizado que meu pai só teve o trabalho de escolher. E mais vizinhos se postam a observar, a Mayara quase morre de rir e eu ali, mais vermelho que um pimentão. De repente, mais fogos, mais uma música do Bruno e Marrone, um beijo dos dois, ali mesmo, no meio da rua e eu com um sorriso mais amarelo do que nunca. Quando parecia que tudo ia acabar...

-- O senhor não quer dizer umas palavras a ela? - o locutor perguntou ao meu pai.

E ele se declara pra ela. Ai! Se não fosse tão cômico seria até bonito. Os vizinhos aplaudem e o louctor dá a minha mãe direito de resposta. Até ali ela estava tão quieta que eu já estava achando que a vergonha havia paralisado todos os músculos do rosto dela. Sim, porque minha mãe não tinha mais expressão na cara. Era algo indefinido entre 'Ai, esse meu marido' e 'Vou te matar, Natinho!'. Porém, ela disse só isso...

-- Eu só tenho a dizer que também te amo muito e que essa data se repita ainda muitas vezes.

Novo beijo, Caetano canta 'Eu sei que vou te amar' no alto-falante, embutido no porta malas do carro, ela chora, os vizinhos ovacionam e o Kayky, o meninho de três anos aqui do prédio, faz uma gracinha no microfone, todo mundo acha graça e eu respiro aliviado... Ai! Acabou...

...Nada! Tinha mais um foguete e mais uma música (Eram 4!). Meu pai vai até o carro-circo e pega uma cesta para minha mãe. No fundo, no fundo, eu sei que ela preferia uma jóia, mas amou a homenagem. E, graças a Deus, o carro vai embora ao som de "Same Mistake", do James Blunt.

Os vizinhos que observavam se recolhem e voltam a suas vidinhas noturnas. Meus pais entram para casa. E eu fico ali.

O Marlon e a Mayara comentam algo. Eu, pensando:

"Pode até ter sido barangoso, rídiculo e brega. Mas está pra nascer pais mais apaixonados do que o meu... Até que no fim eu acho que gostei. Contudo, que isso não se repita no próximo ano." E me pus a rir daquele loucura amorosa do meu pai pela minha mãe.