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sábado, 1 de agosto de 2009

Segunda Parte


Bati a campainha. Aguardei por um instante. Talvez ele estivesse se recompondo. Colocando pelo menos a calça para parecer decente. Bati outra vez. Se estivessem fazendo algo que parassem agora. Quando ia bater pela terceira vez escutei um barulho vindo do lado de dentro do apartamento. Alguém estava se aproximando da porta. Não, eu não devo! Impulsos percorreram todo meu corpo na tentativa de me afastar dali. Ir embora. Sumir. Deixar que eles fossem felizes. Mandar postais no natal. Ligar nos aniversários. Conter minha ira, inveja, ciúmes, o escambau, mas não acabar com nossas vidas ali, sem levar em consideração o que elas poderian ainda nos oferecer. Éramos tão jovens. Não valia a pena.
Eu sou um fraco de merda!
-- Ah, é você!
Pedro quem abriu a porta.
-- Por que? - eu perguntei.
-- Por que o que? - ele retrucou.
-- Por que a surpresa?
-- Por nada, ora! Você tem a chave daqui, não tem?
-- Perdi.
-- Desastrado! Devia ter mais cuidado com suas coisas, ô cabeça de vento!
-- Você acha? - eu perguntei, contendo o ódio. Minha voz tremia.
-- Tenho certeza. Senta aí!
Se fosse um outro animal já teria sentido o perigo que lhe aguardava. Pedro foi até a cozinha. Não ouvi barulho algum vindo de dentro. Será que ela já estava dormindo?
-- Queria mesmo falar com você! - ele me disse, enquanto voltava da cozinha com duas taças cheias de vinho. -- Toma isso aí! Sobrou de ontem. Comprei duas garrafas, mas não tomei nenhuma.
-- A Vitória adora vinho! - eu disse, trêmulo.
-- Sim. Eu sei.
-- Melhor então chamá-la aqui!
-- Melhor não.
-- Ela está dormindo?
-- Não sei.
-- Como não sabe?
-- Que que você tem?
-- O que eu tenho?
-- Cê tá branco!
-- Eu sou branco!
-- Não como alguém que perdeu todo o sangue do corpo. - disse ele, rindo-se.
-- E a Vitória?
-- Por que o interesse?
-- Não sei! Ás vezes fico assim: interessado em coisas alheias.
-- Mas ela não é uma coisa alheia, Tiago.
Filho de uma mãe! Devia der lhe dado pelo menos dois tiros. Nem que fossem no pé! Só para não dar-lhe a oportunidade de manter aquele sorriso cínico.
-- Você a ama, não ama?
-- E te importa?
-- Vai ver que sim, não é? As coisas que dizem a respeito a minha namorada são do meu interesse. Você não concorda comigo:
-- Isso é uma provocação, Pedro?
-- Uma constatação, Tiago!
-- Onde ela está?
-- Então você veio atrás dela?
-- Isso te diverte, não é?
-- Confesso que um pouco! - ele deu uma última golada em seu vinho. Quando dei por mim estávamos nós dois, sentados no chão frio, encostados cada um em uma parede, de frente para o outro. A tensão crescia no meu peito, onde o coração saltitava.
-- Quem você pensa que é, Pedro? - eu perguntei. Senti que minha boca estava seca como nunca e não havia mais vinho na minha taça.
-- O cara que lhe trará mais vinho! Me divirto com você, meu irmão!
Pedro pegou minha taça e foi novamente para a cozinha, buscar mais vinho. O apartamento não era grande. Um quarto, uma cozinha pequena, um banheiro e uma sala. O suficiente para um rapaz que vivia sozinho na capital para poder estudar. Nunca soube muito da família ou da história dele. De certo, eu continuaria minha vida inteira sem saber porque tinha convicção de que, depois daquela noite, o Pedro não contaria mais nenhuma história nem a mim nem a ninguém.

Já estava demorando demais para fazer aquilo que, na minha cabeça, parecia tão simples.

3 comentários:

Unknown disse...

Parece que estou dentro da mente de um assassino lunáticoo ..

Gostei!..rsr



quero maiis

Unknown disse...

Parece que estou dentro da mente de um assassino lunáticoo ..

Gostei!..rsr



quero maiis

Ana Carola disse...

Nuh...q doido!

Qualquer semelhança entre os personagens mera coincidência, né Raysner?

rsrsrrs